Blog · Análise de dados
Só 11,5% das empresas portuguesas usam IA. As razões não são as que se pensa.
Portugal tem melhor infraestrutura digital que a média europeia, jovens com mais competências digitais que a média europeia, e uma das taxas mais altas de uso pessoal de IA da União. Nas empresas, está no fundo da tabela.
Portugal tem infraestrutura digital acima da média europeia, uma geração jovem com competências digitais acima da média europeia, e uma das taxas mais altas de utilização pessoal de IA da União Europeia. E ainda assim, apenas 11,5% das empresas portuguesas usam alguma tecnologia de inteligência artificial — contra cerca de 20% na média da UE-27.
A explicação habitual é falta de infraestrutura ou falta de talento. Os dados dizem que não é nenhuma das duas. O INE perguntou directamente às empresas portuguesas o que as trava, e as respostas mudam completamente a conversa.
As pessoas já chegaram à IA. As empresas, não.
Em 2025, 38,7% da população portuguesa usava ferramentas de IA generativa — acima da média da UE-27 (32,7%) e à frente de Espanha (37,9%), França (37,5%) e Alemanha (32,3%).
Nas empresas, a posição inverte-se. Entre as empresas com dez ou mais trabalhadores, a taxa de adoção em Portugal é de 11,5%, contra 19,95% na média europeia — uma distância de cerca de 8,4 pontos percentuais.

Portugal tem simultaneamente uma das taxas mais altas de adoção pessoal e uma das mais baixas de adoção empresarial. Os portugueses chegaram à inteligência artificial antes da economia portuguesa.
O crescimento mais lento da União Europeia
Entre 2024 e 2025, a adoção empresarial de IA em Portugal cresceu 2,91 pontos percentuais — mais rápido do que no ano anterior, mas ainda assim o ritmo mais lento da União. A média da UE-27 cresceu 6,5 pontos. A Dinamarca passou de 27,6% para mais de 42%.

A Comissão Europeia tem como meta 75% das empresas a integrar IA até 2030. Ao ritmo actual, Portugal não chega lá — e o fosso face à média europeia alarga em vez de encolher.
O problema não é o país. É a dimensão da empresa.
Este é o detalhe que muda tudo. Nas grandes empresas portuguesas, a adoção de IA está nos 49,2% — relativamente próxima da média europeia de 55%. O atraso português não é um problema de grandes empresas.

Apenas 9,4% das pequenas empresas portuguesas e 18,2% das médias usam IA. Na Dinamarca, mesmo as pequenas empresas vão em 37,5% — quatro vezes mais.
O resultado: Portugal tem o 3.º maior fosso da União Europeia entre a adoção de IA em empresas médias e grandes, com 30,9 pontos percentuais de diferença.

Traduzido: em Portugal, a IA chegou às organizações que já tinham escala e departamento de tecnologia para a absorver. Não chegou às restantes — que são a esmagadora maioria do tecido económico.
As 4 razões reais, segundo o INE
Aqui é que a conversa muda. O INE perguntou às empresas que ainda não usam IA porque não avançaram. As respostas:
| Travão | % das empresas |
|---|---|
| Falta de conhecimentos adequados dentro da empresa | 74,4% |
| Custos considerados demasiado elevados | 60,4% |
| Falta de clareza quanto às consequências legais, incluindo responsabilidade por danos | 57,3% |
| Preocupações com privacidade e proteção de dados | 55,4% |

Repare-se no que não está nesta lista: falta de internet, falta de rede, falta de acesso a ferramentas. 98,8% das empresas portuguesas têm ligação à internet para fins profissionais.
E os dados de infraestrutura confirmam-no:
A infraestrutura existe. O talento existe. O que falta é conhecimento aplicado dentro da empresa — saber onde a IA cria valor naquele negócio concreto, quanto custa realmente, e como fazê-lo sem criar exposição legal ou de dados.
Note-se ainda um sinal positivo: 12,3% das empresas que ainda não usam IA admitem poder vir a adotá-la, mais 2,8 pontos percentuais do que no ano anterior. A intenção está a crescer mais depressa do que a execução.
Em que setores o atraso é maior
A média nacional esconde diferenças enormes:

Todos os setores cresceram face a 2024, destacando-se transportes e armazenagem com um aumento de 9,9 pontos percentuais — o maior do país. O padrão é claro: onde a tecnologia já era o negócio, a IA entrou. Onde o negócio é físico, operacional ou de serviço tradicional, ainda não.
O que realmente falta
Se o travão nº1 é falta de conhecimento interno e o nº2 é a perceção de custo elevado, o problema não se resolve com mais ferramentas disponíveis no mercado. Resolve-se com três coisas concretas:
- Um diagnóstico honesto que identifique dois ou três casos de uso com retorno mensurável naquele negócio — e que diga também o que não vale a pena fazer.
- Implementação que funcione em produção, integrada nos sistemas que a empresa já tem, não um piloto que fica na gaveta.
- Capacitação da equipa, para que a utilização não dependa de um fornecedor externo permanente.
E, sobre o custo: uma parte significativa do investimento em IA em PME portuguesas é elegível para apoio público. Os avisos mudam ao longo do ano, por isso mantemos o foco em diagnósticos que refletem a realidade actual de cada empresa em vez de citar números que envelhecem.
Perguntas frequentes
Quantas empresas portuguesas usam inteligência artificial?+–
Em 2025, 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais trabalhadores usavam pelo menos uma tecnologia de IA, contra cerca de 20% na média da UE-27, segundo o Eurostat e o INE.
Porque é que as empresas portuguesas não adotam IA?+–
Segundo o INE, os quatro principais travões são: falta de conhecimentos adequados dentro da empresa (74,4%), custos considerados demasiado elevados (60,4%), falta de clareza quanto às consequências legais (57,3%) e preocupações com privacidade e proteção de dados (55,4%). Infraestrutura e conectividade não são factores relevantes.
Portugal está atrasado na adoção de IA?+–
Nas empresas, sim: tem uma das taxas mais baixas da UE e o crescimento mais lento. Nas pessoas, não: 38,7% da população usa IA generativa, acima da média europeia de 32,7%. Nas grandes empresas o atraso é pequeno (49,2% contra 55% na UE); concentra-se nas pequenas e médias.
Que dimensão de empresa está mais atrasada na adoção de IA em Portugal?+–
As pequenas empresas, com 9,4% de adoção, seguidas das médias com 18,2%. As grandes empresas estão nos 49,2%, perto da média europeia.
Que setores em Portugal usam menos IA?+–
A construção e atividades imobiliárias, com apenas 5,5% de adoção. No extremo oposto, informação e comunicação está nos 52,8%.
Vale a pena uma PME investir em IA?+–
Depende inteiramente de haver um caso de uso com retorno identificável. O erro comum não é investir pouco — é investir sem diagnóstico prévio, o que produz pilotos sem ligação à operação. Um diagnóstico deve poder concluir que não vale a pena avançar.
Ajudamos empresas a fechar este fosso
Trabalhamos com PME portuguesas e europeias que sabem que precisam de avançar com IA mas não têm conhecimento interno para saber por onde começar — o travão que 74,4% das empresas portuguesas identificam. Começamos por um diagnóstico, não por uma proposta de software.
Agendar conversa de 30 minutosFontes:Eurostat, "The use of artificial intelligence technologies in the European Union — Key results", edição de 2026. INE, Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Empresas, 2025. Comissão Europeia, "State of the Digital Decade 2026 — Digital Decade Short Country Report: Portugal".